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João Saldanha, o técnico que desafiou a ditadura militar brasileira

João Saldanha é um dos responsáveis pela mágica seleção de 70 (Foto: reprodução)
 
Por José Victor, RJ

Poucas pessoas sabem a dimensão do que representa o esporte e principalmente o futebol. Se em vários outros esportes atletas são formadores de opiniões políticas, imagina no jogo mais amado pelos brasileiros? São vários os exemplos de atletas politicamente engajados e que não ocupam o cargo apenas pela popularidade que tinham dentro das quatro linhas. O mesmo talento que tinham para atrair os olhares dos torcedores, também tinham para mobilizar as massas e atrair a atenção para a política.

O eterno Sócrates, por exemplo, era um ídolo não apenas do Corinthians, mas nacional. Foi um dos líderes da democracia corintiana e chamou a atenção para o movimento “Diretas Já!”, que em 1984 buscava eleições diretas para a presidência ao fim da ditadura militar. Fora do Brasil, o ex-zagueiro da seleção francesa Lilian Thuram é uma referência política na França principalmente pela luta contra o racismo e a liberdade sexual. Em tempos de xenofobia altíssima na Europa, é sem dúvida alguma uma referência de peso.

Mas voltando ao nosso país, durante os preparativos para a Copa de 1970 no México, uma figura moralizadora chamada João Saldanha ajudou a construir o que muitos consideram a melhor seleção de futebol que o Brasil já produziu.

Com a presença de nomes como o nosso eterno capita Carlos Alberto Torres, Pelé, Gérson, Jairzinho entre tantos outros, João Saldanha foi técnico da equipe do Botafogo e depois da Seleção Brasileira. Ocupou o cargo entre 1969 e 1970, o suficiente para escrever seu nome não apenas na história do esporte, mas na história do nosso país e se tornar uma figura simplesmente amada nacionalmente.

João Saldanha, o técnico que desafiou a ditadura militar brasileira e ficou conhecido como "João Sem Medo". (Foto: http://oglobo.globo.com)
João Saldanha, o técnico que desafiou a ditadura militar brasileira. (Foto: Reprodução/O Globo)
  

Nascido em Alegrete (RS), foi no Rio de Janeiro que esta grande figura se mostrou para o Brasil. João Saldanha tinha múltiplas facetas. Conseguiu ao longo da sua vida ser escritor, advogado, jornalista, um dos principais membros do PCB (Partido Comunista Brasileiro) durante a ditadura militar e técnico da seleção brasileira.

Saldanha contava com o carisma do povo brasileiro. O fato de trabalhar em diversos cantos acumulando funções de destaque colaborou para a sua importância nacional. Pegou a seleção que vinha de um resultado negativo após a Copa de 1966 e transformou a equipe de novo no “bicho papão” mundial. Com a maioria dos jogadores sendo de Santos e Botafogo, principais equipes do país na época, a seleção tinha tudo para ganhar a Copa do Mundo de 1970 que seria disputada no México. Porém, quase que às vésperas do Mundial, com o Brasil já classificado, o então presidente Emílio Garrastazu Médici, que usava a seleção canarinho como plataforma política, teve a sacada de que não poderia dividir o título mundial com um comunista.

O presidente Médici começou a “fritar” Saldanha de todas as maneiras. Usou sua influência política para fazer críticas muitas vezes injustas ao até então técnico da seleção. Após a convocação feita por João Saldanha para a Copa do Mundo de 1970, o presidente Médici criticou a ausência do atacante Dario “peito de aço”, a resposta do técnico não poderia ser mais brilhante e corajosa:

“O Brasil tem 80 ou 90 milhões de torcedores, gente que gosta de futebol. É um direito que todos têm. Aliás, eu e o presidente ou o presidente e eu temos muita coisa em comum… Somos gaúchos, somos gremistas e gostamos de futebol… e nem eu escalo ministério, nem o presidente escala time. Você está vendo que nos entendemos muito bem.”  

 

João Saldanha foi demitido sem maiores explicações após o atrito com o autoritário Médici seis dias antes de embarcar para o México, para tristeza de muitos brasileiros. Zagallo foi seu substituto. Mesmo fora, o ex-comandante canarinho não se abalou. Apaixonado por Copa do Mundo, participou de diversas transmissões, e no torneio de 1970 não foi diferente: comentou a disputa inteira com a maestria de sempre.

Infelizmente não teve o devido reconhecimento pelo tricampeonato depois que Zagallo o sucedeu. Não treinou uma equipe sequer após a demissão. No entanto, foi um dos principais nomes do jornalismo esportivo nacional, cobrindo todas as Copas do Mundo até morrer em 1990. Ele faleceu na Itália, 4 dias após o término da Copa do Mundo do país.

Saldanha sempre foi irreverente ao mesmo tempo em que possuía posicionamentos firmes enquanto comentarista. Criticava desde a década de 80 a “europalização” do futebol brasileiro. Alegava que estávamos deixando de lado o “futebol jogado com música” para privilegiar um futebol defensivo, a famosa retranca, algo jamais admirado por ele. Como técnico ou comentarista, fazia questão de ver um futebol ofensivo e vistoso.

Um treinador que começou a carreira no Botafogo, após dar seus pitacos no rádio, e se tornou campeão. Logo depois, assumiu uma seleção brasileira desacreditada e a transformou no melhor time do mundo. Comprou uma briga e bateu de frente com um presidente militar autoritário em pleno auge da repressão. Tudo isso fez do João Saldanha uma figura de sucesso, versátil e corajosa. Depois de tantos feitos, impossível definir o quanto João Saldanha foi grandioso.

Anos após o seu atrito com Médici, o técnico-jornalista expôs maiores detalhes do episódio no programa Roda Viva da TV Cultura. Disse que se recusou a encontrá-lo e que o presidente nunca tinha visto Dario Peito de Aço jogar pessoalmente, pois toda vez que o jogador atuava, ele tinha um compromisso em um lugar diferente.

Saldanha também expôs que enquanto esteve ocupando o cargo de treinador da seleção brasileira, teve diversos amigos mortos pela repressão. Ressaltou que levou uma pilha de documentos para o México comprovando a prisão de mais de 3.000 presos, mais de 300 mortos e inúmeros torturados pela ditadura militar brasileira. Reforçando mais ainda a tese de que para Médici era fundamental retirar um dos principais militantes do PCB de um dos principais cargos futebolístico do país.

Assumidamente comunista, e mesmo com o AI-5 a pleno vapor, Saldanha não deu o braço a torcer e quis mostrar para os brasileiros que era possível lutar pelo direito de ter a liberdade de exercer o seu trabalho e aplicar suas convicções. O ato de travar uma queda de braço com Médici sem dúvidas foi uma forma de resistência durante a ditadura, principalmente por tudo o que significava a seleção de futebol para todos os brasileiros.

 

Um trecho do livro João Saldanha, biografia escrita pelo grandioso jornalista esportivo João Máximo, retrata bem o que Saldanha simbolizou:

 “– Fui contrabandista de armas aos seis anos de idade, líder estudantil aos 20,…membro do Partido Comunista a vida toda. Também fui jogador e técnico de futebol… analista de escola de samba… co-autor de enciclopédia, ator de cinema, candidato a vice-prefeito…
– Queremos alguém diferente… um grande personagem, diz São Pedro.
– Isso dizem que eu fui: um grande personagem. Contraditório como costumam ser alguns deles. Lúcido e confuso ao mesmo tempo… Justo e absurdo…Parece que vivi várias vidas, sempre entre a lenda e a realidade…

– Ah… Agora sim, João. Pode entrar e seja bem-vindo.” 

João Saldanha é um exemplo que resistir é preciso, mesmo que seja para não levar um “bom” atacante para seleção. Não bastava ser bom, tinha que ser craque. E ele foi um craque em tudo que fez na vida, até em resistir e não abaixar a cabeça para quem tanto oprimiu o povo brasileiro. Não foi por acaso que João Saldanha também ficou conhecido como “João Sem Medo.”

Fontes: Livro: João Saldanha – João Máximo, Documentário: “JOÃO” (2008) – André Iki Siqueira e Beto Macedo.

Fonte: Cenas Lamentáveis, 15/05/2017

Disponível: http://cenaslamentaveis.com.br/joao-saldanha-o-tecnico-que-desafiou-ditadura-militar-brasileira/

 

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