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Desaparecidos: veja depoimentos de quem passou quase 50 anos na busca de familiares presos na ditadura

Parentes de vítimas se reuniram, pela primeira vez, em Brasília. 'Agora fechou um ciclo', diz filha de militante morto e identificado por amostra de DNA

 

Por Marília Marques, G1 DF
04/12/2018 19h54 Atualizado há um dia

 

Aluizio Palhano, sindicalista desaparecido em São Paulo, durante ditadura militar, em 1971 - Foto: Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos /Reprodução

 

Após longos 47 anos de espera, a filha do sindicalista Aluizio Palhano – desaparecido durante a ditadura militar – pode, finalmente, vivenciar o luto. Nesta segunda-feira (3), em Brasília, Márcia Guimarães, de 70 anos, recebeu a confirmação de que os restos mortais encontrados na vala clandestina de Perus são realmente do seu pai, morto em abril de 1971 aos 49 anos.

"Agora acabou, fechou um ciclo."

A identificação foi possível a partir de uma análise genética que comparou as amostras de DNA dela, com fragmentos encontrados na ossada descoberta junto com outras mil, no cemitério Dom Bosco, em São Paulo, em 1990.

O resultado foi anunciado durante o I Encontro Nacional de Familiares de Desaparecidos Políticos que continua nesta terça (4), na Escola Superior do Ministério Público da União (ESMPU).

"O surpreendente é que tudo foi possível apenas com aquela gotinha de sangue, coletada em 2016."

 

Filha de Aluízio Palhano, Márcia Guimarães (de branco) recebe a confirmação da identidade do pai morto durante ditadura militar - Foto: Roberto Furtado/Arquivo pessoal

 

A pesquisa científica foi conduzida pelo perito Samuel Ferreira. Ele é coordenador da equipe que, em quatro anos, coletou e analisou mais de 300 amostras de DNA de desaparecidos políticos.

"No Brasil e na América do Sul, é um recorde conseguir a comparação de material genético depois de tanto tempo", explica.

"Além de nos motivar tecnicamente pela causa, a gente espera que os resultados motivem os familiares também."

Agora, com a confirmação de que os restos mortais encontrados são realmente do pai, Márcia diz que a ossada será cremada e, possivelmente, lançada nas águas da Bacia de Guanabara.

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Antônio Guilherme Ribas

Ao contrário do alívio sentido por Márcia, o aposentado José Dalmo Ribas ainda não pode fechar o ciclo. Há 45 anos ele e a família procuram pelos restos mortais de Antônio Guilherme Ribas, desaparecido em 1973.

 

José Dalmo colhe material genético para banco de dados da equipe de identificação - Foto: Marília Marques/G1

 

Antônio era o irmão mais novo de José Dalma e participou da Guerrilha do Araguaia. Passada quase meia década, a única informação dada sobre o paradeiro dele é de que o estudante teria sido "morto e decapitado na selva".

"Segundo o depoimento do major Curió [codinome do coronel Sebastião Moura], ele foi morto no natal de 1973. Como havia limitação para carregar mais peso no helicóptero, levaram só a cabeça e o corpo ficou", lembra.

O atestado de óbito só veio na década de 1990, após uma lei federal que determinou a expedição do documento para os desaparecidos políticos. No entanto, para Ribas, o documento "não é suficiente". Na busca por mais informações, ele veio até Brasília e participa do encontro nacional.

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Sala de coleta montada no I Encontro Nacional de Familiares de Desaparecidos Políticos - Foto: Marília Marques/G1

 

Nesta segunda (3/12), o aposentado coletou amostras do DNA e, em uma possível localização futura do corpo do irmão, os dados servirão como meio de identificação. Ele é o único membro vivo da família de seis irmãos.

"Durante muitos anos, eu guardei uma expectativa de que, quem sabe, ele não tivesse morrido, mas, por alguma razão, tivesse conseguido fugir", diz.

"Hoje me senti muito emocionado porque, passados tantos anos, ver um auditório cheio de pessoas, faz sentir que não fomos esquecidos. É um conforto."

 

A Guerrilha do Araguaia foi um movimento existente ao longo do rio Araguaia, entre as décadas de 60 e 70   
Foto: Reprodução/TV Liberal

 

Encontro nacional

Nesta segunda (3) e terça-feira (4), Brasília sediou o I Encontro Nacional de Familiares de Pessoas Mortas e Desaparecidas Políticas. O evento tem o apoio do Ministério dos Direitos Humanos.

No encerramento, familiares das vítimas produziram uma carta pública que, nos próximos dias, deve ser entregue em órgãos federais ligados à causa (leia documento abaixo). O manifesto defende, entre outros pontos, a continuidade do trabalho da comissão e a "necessidade de preservação de todos os arquivos relativos ao período da ditadura militar".

O encontro ocorre em dezembro como uma forma de unir datas importantes – entre elas, os 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, comemorados no próximo dia 10.

Leia a íntegra da Carta de Brasília:

 

Carta de Brasília, elaborada no encerramento do I Encontro Nacional de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos — Foto: CEMDP/Reprodução

 

Fonte: G 1, Distrito Federal, 04/12/2018
Disponível em: https://g1.globo.com/df/distrito-federal/noticia/2018/12/04/desaparecidos-veja-depoimentos-de-quem-passou-quase-50-anos-na-busca-de-familiares-presos-na-ditadura.ghtml?fbclid=IwAR0QREMHMcT9OMXJKJ4keedyUK91ClTlkuCUWNRwjANHIzJa4vhui7jezPQ  

 

 

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