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Documentário ‘Pastor Cláudio’ traz revelações de um torturador

Cena do filme Pastor Claudio, de Beth Formaggini (foto 4Ventos Comunicação)

 

“Pastor Cláudio”, terceiro longa-metragem da cineasta Beth Formaggini, terá pré-estreia, seguida de debate, nesta terça-feira, 12 de março, no Espaço Itaú de Cinema, no Shopping Frei Caneca de São Paulo. Na quinta, o documentário, grande vencedor do Festival de Cinema de Vitória, chega aos cinemas.

Quem assistiu ao curta-metragem “Uma Família Ilustre” (2015), o mais premiado documentário da mineira (radicada no Rio) Beth Formaggini, conhece o protagonista de seu novo filme, o delegado de polícia Cláudio Guerra, hoje conhecido como pastor evangelista. Conhece, também, o dispositivo por ela utilizado para contar esta história capaz de causar arrepios. A história de um agente, que atuou na linha de frente da repressão política nos chamados anos de chumbo (final dos anos 1960 até 1976), prolongados até o fim da ditadura militar, em 1984.

Com calma impressionante, o Pastor assume a execução de nove militantes políticos ou guerrilheiros urbanos (Nestor Veras, do PCB, Ronaldo Queiroz e Merival Araújo, da ALN, Almir Custódio de Lima, Ramiro Maranhão e Vitorino Moutinho, do PCBR, Manoel Lisboa de Moura, Emmanuel Bezerra e Manoel Aleixo, do PCR) e a incineração de pelo menos doze corpos no forno da Usina Cambahyba, entre eles o da química e professora da USP Ana Rosa Kucinski e o de David Capistrano da Costa, ex-integrante das Brigadas Internacionais na Guerra Civil Espanhola (1936-1939).

O material que Beth Formaggini e sua equipe colheram para “Uma Família Ilustre, premiado pela Academia Brasileira de Cinema e em diversos festivais internacionais, era tão espantoso, que ela decidiu empreender novas pesquisas, buscar novas imagens e realizar um longa documental. O curta dura 18 minutos, o longa, 77.

Nesta entrevista à Revista de CINEMA, a cineasta, historiadora (formada pela Universidade Federal Fluminense) e colaboradora de Eduardo Coutinho nos filmes “Peões”, “Edifício Master” e “Babilônia 2000” (além de autora do documentário “Apartamento 608 – Coutinho.doc”) discute a construção narrativa de “Pastor Cláudio”. E discorre sobre os autores com os quais dialogou na realização deste impressionante resgate de um dos momentos mais difíceis de nossa história política.

Você fez um curta-metragem muito impactante sobre o Pastor Cláudio e suas terríveis revelações. Em que momento você sentiu a necessidade de realizar também um longa-metragem?

Quando montamos o copião para editar o curta “Uma Família Ilustre”, que é focado na Operação Radar, vimos que o material continha informações para além deste episódio que, também, eram muito relevantes. Esta operação assassinou, com a colaboração de Cláudio Guerra, dezenove integrantes do PCB e deixou doze desaparecidos, entre 1973 e 76. Decidimos, então, fazer o longa para abordar também o período pós-Abertura.

Que materiais visuais lhe serviram de fonte e estão editados no filme? A entrevista feita pelo psicólogo e ativista dos Direitos Humanos, Eduardo Passos, foi feita para seu curta-metragem? Você utilizou também material da Comissão da Verdade, de arquivos e de programas de TV, como o “Observatório da Imprensa”, de Alberto Dines?

No filme, está o arquivo da conversa filmada para o curta “Uma Família Ilustre”, em 2015, além de imagens projetadas no estúdio para que o pastor interagisse com elas. Para estas projeções, editamos trechos do meu outro longa, “Memória para Uso Diário” (2007), e do filme “Vlado, 30 Anos Depois” (2005), de João Batista de Andrade. Projetamos também documentos e fotos do Arquivo Nacional, Arquivo Público dos Estados do Rio e de SP, de revistas, jornais e agências de notícia, do Instituto Vladimir Herzog, Arquivo Edgard Leuenroth, Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos, Comissão Nacional da Verdade, Dossiê Mortos e Desaparecidos no Brasil, Grupo Tortura Nunca Mais/GTNM RJ, Memórias Reveladas e do site do Partido Comunista Brasileiro. Na preparação, assistimos às entrevistas dos agentes da Ditadura no site da Comissão Nacional da Verdade, lemos Hannah Arendt e estudos sobre a ditadura nos anos 1970, discutimos muito as entrevistas anteriores de Cláudio Guerra à TV e aos jornais e preparamos, depois disto, uma pauta muito precisa. O material do Alberto Dines realizado para o “Observatório da Imprensa” foi fonte de pesquisa essencial, assim como o livro “Memórias de uma Guerra Suja”, mas este material não está no filme. Assistimos também a documentários como “Teodorico, o Imperador do Sertão”, de Eduardo Coutinho, no qual ele “cede a palavra” a um “coronel” nordestino, dono de terras, de gentes e da política local. Os filmes “Duch, le Maîtres des Forges de L’Enfer” e “S21”, de Rithy Panh, também foram muito importantes para a construção do dispositivo do filme. Neles, o documentarista cambojano Rithy Panh dá passagem à narrativa dos violadores de direitos humanos no Camboja trazendo à tona uma visão aterrorizante da história. Nossa ideia era fazer aparecer estas violações enunciadas pelo próprio violador também como uma forma de resistência, assim como vemos nestes filmes citados acima.

O Pastor Cláudio, durante as gravações, nunca perdia a calma? Em todo o material bruto do filme, ele se expressava com aquela serenidade espantosa?

Quando um personagem depara-se com um dispositivo fílmico, ele se transforma não só num ator, mas também em um autor, que cria o seu autorretrato para o filme, desenvolvendo uma narrativa sobre si próprio, uma performance. Cláudio mostra um autocontrole impressionante e choca pela frieza. Mas ele deixa transparecer no discurso, nas frestas das palavras, alguma impaciência. Perde a calma algumas vezes durante a conversa. Por exemplo, quando Ivanilda (esposa de um desaparecido político) pergunta pelo marido ou quando Eduardo Passos pergunta se ele ganhava por fora, além do salário, ou quando o Sargento Marival Chaves diz que alguns corpos que ele afirma ter incinerado foram jogados no Rio Avaré: ele repete três vezes, com orgulho, “eu fiz, Marival só ouviu falar”.

Com seu filme, conhecemos bastante da trajetória de Cláudio Guerra e, em boa medida, de Heli Ribeiro, o proprietário da Usina Cambahyba, em Campos dos Goytacazes (RJ). O filme é um dos poucos (o exemplo mais notável é “Cidadão Boilesen”) a falar em golpe militar-civil-empresarial. Ou seja, a mostrar a relação próxima entre o empresariado e a repressão política. Há algum outro nome envolvido na narrativa do Pastor Cláudio, que você tenha evitado por temor de processos?

Não, está tudo lá, não cortei. A grosso modo, a mesma elite brasileira que forjou o Golpe de 1964 e o sustentou por mais de vinte anos está hoje no poder, considerando, claro, as mudanças contidas nestes 50 anos que se passaram. Não é por acaso que o atual presidente homenageia (Carlos Alberto Brilhante) Ustra, um dos maiores assassinos e mais cruel torturador do regime militar. O que ocorreu em 1964 foi um golpe civil, empresarial e militar que contou com o apoio de ruralistas, banqueiros e empresários, mas também de uma grande parte da sociedade, que fingia não ver os crimes que eram cometidos. Quando Cláudio fala, nesta entrevista de 2015, que os grupos que sustentavam a ditadura estavam se articulando para voltar ao poder, o filme ganha uma atualidade impressionante. Ele prenuncia, guardadas as devidas proporções, o que está ocorrendo no Brasil hoje.

A restrição que o Pastor Cláudio faz ao depoimento do Sargento Marival Chaves dá ao filme maior rigor narrativo. Afinal, o Sargento conta que “ouviu falar” de corpos jogados no Rio Avaré. E Cláudio Guerra, o Pastor, diz que fala de experiência própria vivida, que os corpos eram incinerados.

As motivações de Cláudio Guerra variam entre o orgulho em ser um cumpridor de ordens competente, um servo leal da luta contra o comunismo, o prazer de ser temido e o amor ao poder e ao dinheiro. Ora ele transparece ser um cristão arrependido, ora revela-se um assassino orgulhoso de seu trabalho. Neste momento, acho que ele deixa transparecer um certo orgulho. Ele diz eu fiz, ele repete eu, eu, eu. Nós buscamos trabalhar com o que o Eduardo Coutinho chamava de acontecimento verbal, apostando na palavra falada e suas brechas.

Por que você optou pelo uso de projeções em estúdio preto como cenário do depoimento do ex-delegado de polícia, hoje pastor? Foi uma decisão tomada junto com sua equipe técnica?

Isto mesmo. Não foi à toa que chamei o fotógrafo Cleisson Vidal. Em 2010, criamos juntos um set num estúdio com projeções para o curta “Angeli 24 Horas”. A intenção era a mesma, que a imagem projetada provocasse uma interação com o personagem. As projeções exigem uma sala escura, mas além disto o foco de luz sobre os dois personagens poderia evocar uma sala de interrogatório. Além disto, a projeção sobre o corpo de Cláudio Guerra o deixaria tatuado com as marcas daquilo que fez.

Na parte final do filme, o Pastor mostra que, depois da abertura política, alguns militares, figuras de comando na repressão, aplicaram seus conhecimentos montando empresas de segurança. E que muitos foram prestar serviço a bicheiros. O Capitão Guimarães, citado por Cláudio, é o que comandou escola de samba e jogo do bicho?

Sim, havia uma ligação de Freddie Perdigão (chefe imediato de Cláudio Guerra) com o jogo do bicho. Ele tornou-se chefe de segurança de bicheiros e, depois da abertura, passou este “cargo” para o Cláudio Guerra.

Pastor Cláudio
Brasil, 77 minutos, 2019
Direção, Roteiro e Coordenação de pesquisa: Beth Formaggini
Fotografia: Cleisson Vidal e Juarez Pavelak
Pré-estreia, com ingressos à venda, nesta terça-feira, 12 de março, no Espaço Itaú de Cinema, às 21h. Sessão seguida de debate com a diretora.

Por Maria do Rosário Caetano

 

Fonte: Revista de Cinema, 11/03/2019
Disponível em: http://revistadecinema.com.br/2019/03/pastor-claudio/ 

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